domingo, 17 de julho de 2016

A flor mais bonita do jardim

Você me falou sobre a cor lilás da flor mais bonita do jardim do seu sítio. Eu imaginei cada detalhe da flor, e me levei diretamente pra sua infância. Eu ouvi suas palavras, a forma como descrevia os detalhes daquele dia fatídico que começou com a flor mais bonita do jardim e terminou com você levando 3 pontos na testa. E eu entendi que quando você quer muito algo, você se arrisca. Te disseram pra não subir naquele balanço de corda preso na árvore, mas você decidiu que deveria escalar pra conseguir ver de perto os detalhes da flor que era a mais bonita do jardim. Foi subindo e se balançando aos poucos. Sentiu medo algumas vezes, mas medo de altura é super normal pra uma criança de 8 anos. E me contou isso nervoso, como se estivesse experimentando aquela sensação outra vez. Quando alcançou o galho e pode ver de cima a flor mais bonita do jardim, o lilás se tornou a sua cor favorita pelos próximos 5 minutos. A observou com toda a delicadeza, e sentiu vontade de levar suas mãos e encostar naquilo que parecia ser a beleza única de toda a natureza. Puxou delicadamente a florzinha que agora não era mais tão grande quanto imaginava. E desequilibrou. Caiu de testa no chão, mas sua flor permaneceu intacta porque conseguiu protegê-la enquanto voava direto pro terreno. A gente protege o que se admira, tem até uma música que fala sobre gostar e cuidar, né?
É.
Então voltou seus olhos pra mim, e disse que quando conseguiu entender que havia caído e estava sentindo dor, você não gritou. Você voltou seus olhos pra flor mais linda do jardim, e percebeu que não era lilás a sua cor favorita. A sua cor favorita era o vermelho do seu sangue sobre o lilás daquela flor que hoje você nem acha mais tão bonita assim. Culpa a dor que sentiu pela diminuição da apreciação. Quando a gente sente dor, o sentimento diminui, sabe?
Sei.
Encostou suas mãos na minha e disse que o vermelho do meu cabelo foi a certeza que te fez ficar. Eu tinha tantas qualidades pra te oferecer e você ficou com medo de ir atrás disso, e acabar com 3 pontos multiplicados por não-sei-quanto, só que no coração. Mas quando abriu os olhos depois daquela nossa noite, a sua cor favorita era o vermelho dos meus cabelos encostados no teu peito. E foi a coisa mais linda que já me disseram. Eu segurei as lágrimas, enquanto você fingia não reparar que havia quebrado a camada mais dura do meu coração. Quando deslizou seus dedos tirando a minha blusa, viu a tatuagem de rosa e percebeu que eu era a flor no alto do jardim que você precisava arriscar. Tudo bem se doer, eu vou cuidar. Você decidiu que não queria me arrancar do alto do jardim, que eu estava exatamente onde deveria estar. Eu sou a flor mais bonita do meu jardim, e você aquele que me faz desabrochar.

Retorna

Você se lembra daquela vez que seu celular parou de funcionar e eu fiquei esperando a sua resposta por dias? Então apaguei seu número e decidi que não ia mais investir, que ia sair, beber e esquecer que estava começando a me apaixonar pelos teus olhos tão lindos. Você surgiu quase uma semana depois, me pedindo mil desculpas e eu duvidei de cada palavra sua. Fingi que não havia me importado, que não estava esperando, que tinha esquecido o que falávamos. E a minha frieza fez com que você também decidisse que não tinha mais porque me encontrar. Dois bobos.
Eu passei todos os 34 dias que passamos separados pensando em alguma forma de te trazer pra minha vida outra vez. Eu tinha prometido e jurado que não te queria mais. Eram muitas diferenças de opinião, eu era tão liberta e você tão conservador. Futebol, religião, política e distância. Tantos fatores me levando pra longe e eu só te queria por perto mais uma vez.
Mandei aquela mensagem com o coração na mão, e os olhos nervosos. Escrevi algumas centenas de vezes o melhor "olá" que conseguia pensar. Como te dizer que fui estúpida? Como te dizer que eu deveria ter te entendido e que conseguia passar por cima das nossas diferenças porque o seu beijo tem o gosto do meu querer? Depois de ter largado o celular e desligado a internet algumas vezes, tentando fugir dessa vontade de te procurar, finalmente enviei o que achei melhor. Corri pra debaixo do cobertor e fiquei olhando fixamente o teto. O que eu estava fazendo? E se você já estivesse com outra pessoa? E se terminar aquele romance que estava no começo, porque eu queria mesmo era você, foi outra atitude impensada? Traz teu sorriso de bom moço que eu esqueço tudo o que aconteceu.
E você trouxe. Em emojis e em bares. Me pegou pela mão, me levou pra dançar, tirou meu vestido e me fez sua. Sentou do meu lado, riu da nossa falta de diálogo, me pediu pra não bancar a princesa de gelo e acariciou meu rosto. Escolheu a cerveja que me agrada, acendeu um cigarro e levou meu coração pelas ruas da Lapa. Colocou os óculos na mesa e me apresentou outra vez aqueles olhos castanhos que brilham com a intensidade das estrelas. Contou uma piadinha, implicou com a minha posição política e me beijou a boca.
Olá! Será que esse lugar reservado no teu coração já tem nome na lista, ou eu posso colocar o meu? Se fechar até ás 17h, eu ainda tenho tempo. Se já estiver fechado, avisa que ninguém vai vir mais e eu sou a primeira da fila. Espero que essa mensagem não chegue atrasada que nem a última que enviei, e que a internet colabore, e que seu celular continue funcionando, e que não haja mais nenhum imprevisto. Eu vou ficar aqui e arrumar um tempo no meu dia, pegar cinco ônibus se for necessário, e deixar a rixa dos nossos times lá fora. Ainda quero conhecer sua história, falar sobre primeiras vezes e fingir que serei sua última. Me beija a boca quando fico nervosa, não me deixa falar demais pois assim posso estragar tudo. Fica aqui que vai começar a chover daqui a pouco, e o teu abraço tem cheiro de proteção.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Vazios

Não estou pedindo seu afastamento. Vamos apenas manter espaços. O espaço da minha vida e continua em minhas mãos. O coração deixo para você. Mas não esqueça que quem manda em tudo é apenas meus cérebro totalmente racional, que ignora todas as suas tentativas frustradas de aproximação. Mantenha-se distante. Aconselharia uns 300 metros, mas ainda não produzem ordem judicial para casos como o nosso. Coisa de pele, você diria. 
Deixo o sabor do meu sorvete favorito para você, assim como deixo nossa canção também. Uma hora o sorvete ou a música podem funcionar com outra pessoa, comigo só piora a situação. Fingiremos sutilezas quando, na verdade, queimamos em chamas por dentro. Mas manteremos a classe. Somos apenas dois seres humanos, cheios de sentimentos, ressentimentos, medos, ânsias e sonhos que se encontraram, apaixonaram-se e agora tornaram o sentimento imortalizado em forma de estrela. 
Agradeço seu telefonema, agradeço a tarde maravilhosa que passamos juntos, agradeço sua dedicação em tentar me deixar confortável como toda a situação complicada. Agradeço também o fato de ter me deixado comer metade das suas batatas apenas para me ver sorrir. Tem tanta coisa doce e satisfatória em você que me recuso a tentar entender porque não demos certo. Obrigado pelo álcool compartilhado e os cigarros que fumamos durante tantas horas de conversa, meu fígado e pulmão realmente não me são mais importantes perante esta nova fase.
Mas se ainda não tiver jeito e a vontade de ficar permanecer e se tornar mais forte do que a vontade de descobrir novos continentes, me deixa permanecer no espaço do teu peitoral, que tanto me abriga bem. Só não deixa o espaço entre minha loucura e desfuncionalidade, vazio. Porque, ainda que não pareça, sou tão cheia de vazios incertos que a minha debilidade deveria ser atestada. E minha certeza, contestada.

domingo, 8 de maio de 2016

Através do espelho

Você joga o cabelo e fala de amor com uma personagem de filme alternativo. Segura o cigarro, e o traga de olhos fechados. Sorri de canto, checa o celular e suspira incomodada. Te chamam de coração de gelo, duvidam quando se diz apaixonada e riem das experiências sofridas que já teve. Eu vejo a dor atravessar seu corpo, como um feixe de luz branca. Toda vez que vou de encontro ao espelho, ali está você. Dolorida, com a ansiedade lhe roendo os ossos. Ignoro os sinais e te afundo nesse amontoado de mágoas passadas. Você é uma criança com medo do escuro e eu sou a adulta que acha que tudo isso é pura besteira. Amanhã quando se levantar, talvez sinta o mesmo. Só que o hoje é o amanhã de ontem e ainda sim você reluta. Tem muita dor no teu peito, tem uma carência sufocante e um amor tão bonito que nunca será entregue. Isso é o que concordamos. Eu era sua esperança e rasguei todas as bandeiras verdes. Aqui não há futuro pra essa romântica que se envolve com quem lhe dá o mínimo de atenção. Já te contei que abraços no meio da madrugada ou mãos dadas em ruas movimentadas não significam amor. Então limpa esse olho borrado, repassa o batom vermelho e vê se usa um cimento de boa procedência nesse teu coração de pedra.