domingo, 17 de julho de 2016

Retorna

Você se lembra daquela vez que seu celular parou de funcionar e eu fiquei esperando a sua resposta por dias? Então apaguei seu número e decidi que não ia mais investir, que ia sair, beber e esquecer que estava começando a me apaixonar pelos teus olhos tão lindos. Você surgiu quase uma semana depois, me pedindo mil desculpas e eu duvidei de cada palavra sua. Fingi que não havia me importado, que não estava esperando, que tinha esquecido o que falávamos. E a minha frieza fez com que você também decidisse que não tinha mais porque me encontrar. Dois bobos.
Eu passei todos os 34 dias que passamos separados pensando em alguma forma de te trazer pra minha vida outra vez. Eu tinha prometido e jurado que não te queria mais. Eram muitas diferenças de opinião, eu era tão liberta e você tão conservador. Futebol, religião, política e distância. Tantos fatores me levando pra longe e eu só te queria por perto mais uma vez.
Mandei aquela mensagem com o coração na mão, e os olhos nervosos. Escrevi algumas centenas de vezes o melhor "olá" que conseguia pensar. Como te dizer que fui estúpida? Como te dizer que eu deveria ter te entendido e que conseguia passar por cima das nossas diferenças porque o seu beijo tem o gosto do meu querer? Depois de ter largado o celular e desligado a internet algumas vezes, tentando fugir dessa vontade de te procurar, finalmente enviei o que achei melhor. Corri pra debaixo do cobertor e fiquei olhando fixamente o teto. O que eu estava fazendo? E se você já estivesse com outra pessoa? E se terminar aquele romance que estava no começo, porque eu queria mesmo era você, foi outra atitude impensada? Traz teu sorriso de bom moço que eu esqueço tudo o que aconteceu.
E você trouxe. Em emojis e em bares. Me pegou pela mão, me levou pra dançar, tirou meu vestido e me fez sua. Sentou do meu lado, riu da nossa falta de diálogo, me pediu pra não bancar a princesa de gelo e acariciou meu rosto. Escolheu a cerveja que me agrada, acendeu um cigarro e levou meu coração pelas ruas da Lapa. Colocou os óculos na mesa e me apresentou outra vez aqueles olhos castanhos que brilham com a intensidade das estrelas. Contou uma piadinha, implicou com a minha posição política e me beijou a boca.
Olá! Será que esse lugar reservado no teu coração já tem nome na lista, ou eu posso colocar o meu? Se fechar até ás 17h, eu ainda tenho tempo. Se já estiver fechado, avisa que ninguém vai vir mais e eu sou a primeira da fila. Espero que essa mensagem não chegue atrasada que nem a última que enviei, e que a internet colabore, e que seu celular continue funcionando, e que não haja mais nenhum imprevisto. Eu vou ficar aqui e arrumar um tempo no meu dia, pegar cinco ônibus se for necessário, e deixar a rixa dos nossos times lá fora. Ainda quero conhecer sua história, falar sobre primeiras vezes e fingir que serei sua última. Me beija a boca quando fico nervosa, não me deixa falar demais pois assim posso estragar tudo. Fica aqui que vai começar a chover daqui a pouco, e o teu abraço tem cheiro de proteção.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Vazios

Não estou pedindo seu afastamento. Vamos apenas manter espaços. O espaço da minha vida e continua em minhas mãos. O coração deixo para você. Mas não esqueça que quem manda em tudo é apenas meus cérebro totalmente racional, que ignora todas as suas tentativas frustradas de aproximação. Mantenha-se distante. Aconselharia uns 300 metros, mas ainda não produzem ordem judicial para casos como o nosso. Coisa de pele, você diria. 
Deixo o sabor do meu sorvete favorito para você, assim como deixo nossa canção também. Uma hora o sorvete ou a música podem funcionar com outra pessoa, comigo só piora a situação. Fingiremos sutilezas quando, na verdade, queimamos em chamas por dentro. Mas manteremos a classe. Somos apenas dois seres humanos, cheios de sentimentos, ressentimentos, medos, ânsias e sonhos que se encontraram, apaixonaram-se e agora tornaram o sentimento imortalizado em forma de estrela. 
Agradeço seu telefonema, agradeço a tarde maravilhosa que passamos juntos, agradeço sua dedicação em tentar me deixar confortável como toda a situação complicada. Agradeço também o fato de ter me deixado comer metade das suas batatas apenas para me ver sorrir. Tem tanta coisa doce e satisfatória em você que me recuso a tentar entender porque não demos certo. Obrigado pelo álcool compartilhado e os cigarros que fumamos durante tantas horas de conversa, meu fígado e pulmão realmente não me são mais importantes perante esta nova fase.
Mas se ainda não tiver jeito e a vontade de ficar permanecer e se tornar mais forte do que a vontade de descobrir novos continentes, me deixa permanecer no espaço do teu peitoral, que tanto me abriga bem. Só não deixa o espaço entre minha loucura e desfuncionalidade, vazio. Porque, ainda que não pareça, sou tão cheia de vazios incertos que a minha debilidade deveria ser atestada. E minha certeza, contestada.

domingo, 8 de maio de 2016

Através do espelho

Você joga o cabelo e fala de amor com uma personagem de filme alternativo. Segura o cigarro, e o traga de olhos fechados. Sorri de canto, checa o celular e suspira incomodada. Te chamam de coração de gelo, duvidam quando se diz apaixonada e riem das experiências sofridas que já teve. Eu vejo a dor atravessar seu corpo, como um feixe de luz branca. Toda vez que vou de encontro ao espelho, ali está você. Dolorida, com a ansiedade lhe roendo os ossos. Ignoro os sinais e te afundo nesse amontoado de mágoas passadas. Você é uma criança com medo do escuro e eu sou a adulta que acha que tudo isso é pura besteira. Amanhã quando se levantar, talvez sinta o mesmo. Só que o hoje é o amanhã de ontem e ainda sim você reluta. Tem muita dor no teu peito, tem uma carência sufocante e um amor tão bonito que nunca será entregue. Isso é o que concordamos. Eu era sua esperança e rasguei todas as bandeiras verdes. Aqui não há futuro pra essa romântica que se envolve com quem lhe dá o mínimo de atenção. Já te contei que abraços no meio da madrugada ou mãos dadas em ruas movimentadas não significam amor. Então limpa esse olho borrado, repassa o batom vermelho e vê se usa um cimento de boa procedência nesse teu coração de pedra. 

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Timing

Eu vivo com o constante medo de que você já surgiu na minha vida e eu estava focada em outra pessoa. Tenho a impressão de que você estava naquela festa que todos os meus amigos foram, mas eu preferi ficar em casa com as minhas séries. Talvez eu conheça seu melhor amigo (e odeie), talvez você já tenha visto a minha melhor amiga (e foi afim dela). A estação onde pego o metrô pro trabalho, é seu ponto final. Nós frequentamos os mesmos bares, em dias alternados. Você estava naquela balada que eu cheguei ás 3 da manhã, e foi embora meia-noite porque estava com dor de cabeça. A sua ex fez um vídeo romântico no aniversário de namoro dos dois com a música que me faz lembrar do relacionamento abusivo que tive. Odiamos essa mesma melodia por motivos diferentes. Você entrou na cafeteria pra me procurar, querendo criar um tipo de cenário romântico clichê pra sua próxima conquista, e eu tinha ido embora pois o sistema de cartão estava fora do ar. Eu estava bem ali, entende? Perto dos seus olhos, longe das suas mãos. Faltou o timing. Sempre houveram desvios do destino. Talvez se eu não tivesse esperado meu ônibus por uma hora e vinte sete minutos. Talvez se eu tivesse seguido a minha vontade e feito algo diferente naquela noite onde você havia decidido se arriscar também. Talvez se eu não estivesse sempre sem sorrisos e ignorando todos enquanto danço. Talvez se eu não tivesse namorado um canalha. Talvez se você tivesse ido tatuar no mesmo dia que eu. Talvez eu tenha perdido tanto tempo desejando que você fosse outro alguém que nosso tempo passou e nem nos conhecemos. Ou talvez você esteja por aí, pronto pra pegar o caminho errado e finalmente cair na minha vida.