quinta-feira, 24 de março de 2016

Deserto K


Eu jurava que iria chover no dia que nos encontramos pela última vez. Como se a natureza estivesse limpando seus rastros da minha alma. Nunca mais houve uma gota d'água caindo do céu, e agora estamos presos nesse verão que secou todas as minhas lágrimas. Você se lembra do dia que me beijou em meio a praça, como se mais ninguém existisse nas nossas vidas? Eu me pego imaginando o que teria acontecido se fosse mais fraca. Fui embora sem olhar pra trás, com todos os meus sentimentos conturbados, sem palavras que pudessem te dizer o que aquilo que significou pra mim. Eu vi uma chama de esperança acender toda a lareira que a sua frieza havia apagado. Somos um erro climático.
Mas quando toca aquela música, quando eu pego aquele ônibus, quando tudo volta a tona, eu perco a razão. Eu descubro que ainda sinto, sinto muito. Essa noite sonhei que estávamos dormindo juntos. Você se mexia muito, respiração pesada. Coloquei minha mão no seu rosto e aconcheguei sua cabeça no meu peito. Eu entoava baixo algo que entendi como "você ainda está aqui". Não eu. Você. Impedindo que meu coração siga outros caminhos. Aumentando minha ansiedade. Cortando meus laços. Eu costumava ser um navio sem porto que me prendesse, e você me ancorou no seu triângulos de bermudas tactel. Estou a espera de um pirata corajoso o suficiente pra encarar minhas barreiras e tire da sua dominação.
Eu estava lá quando você pegou a curva mais fácil da rodovia e me fez te perder de vista. Eu vi você indo pro caminho que parecia mais agradável. Eu sofri durante meses, aguardando sua volta. As malas no chão, a poeira machucando meus olhos. A única água que aquele deserto conheceu foi a salgada. Então surgiu um pequeno oásis quando meu celular apitou. Era você, e aquele sorriso que eu já conheço tão bem. Fui correndo, me joguei outra vez de peito aberto. E era apenas miragem.
Mal me curei dos machucados antigos que você havia me proporcionado e já havia novas feridas em aberto. Você nunca me deixa cicatrizar. Rasga minha pele e leva meu coração sem dificuldades. Esquece em cima da sua mesa de cabeceira, e eu fico sem chão. Me devolve sentimentos surrados, que já não cabem mais em mim. Sou um todo que vira nada só de imaginar seu toque.
Num deserto de relações fragilizadas, eu encontrava em você a saída pra minha solidão. Descobri vazio, e meu grito sem resposta ecoando nessa imensidão. Agora vivo essa solidão paralela, vendo areia onde deveria ter sentimentos. Você acabou com as minhas esperanças e as enterrou sem mapa para o tesouro. Tem sido doloroso, mas vou saber sobreviver.

terça-feira, 22 de março de 2016

Alcatrão, Nicotina e Seu Sorriso

Eu te trago como esse cigarro entre os meus dedos. Carrego você na minha bolsa. Quando sinto vontade, te acendo. Coloco minha boca nos seus lábios e sinto um pouco da minha vida se esvair a cada suspiro. Você está ali quando eu quero. Mas eu não te quero mais. Você não é necessário, você me deixa nervosa, você sacia meus desejos. E só. Não é como se estivesse apaixonada por você. Mas só me agrada o seu gosto: vezes mentolado de chiclete, vezes amargo de café. Você combina com mesas de bar, pausa para café e sexo. Parece vulgar, mas é quando te procuro. Ou quando sinto a sua falta por não ser você em nenhum destes momentos.
Não sei quando esse vício começou. Um dia você estava lá e eu quis experimentar. Nossa primeira vez não foi uma boa experiência. Algo me incomodava, minha pressão caiu e atacou minha asma. Tentamos outras vezes, e melhoramos. Você começou a diminuir minhas ansiedades, seu cheiro ficava pela minha pele. Ninguém entendeu como nos envolvemos. Eu parecia querer distância e agora, quando tento me afastar, volto com ainda mais vontade. Tentando compensar a falta que fez durante os dias longe.
Quando não te procuro, compro um maço. Enfraqueço e checo meu celular. Nada seu. Desiludida, acendo um cigarro. Passam as horas , a vontade de ser sua outra vez me consome. Pausa pro café e agora era você que eu queria encostando meus lábios ao invés desse copo plástico. Chego em casa, deito na cama. Nenhuma notícia sua. Você desapareceu como fumaça. Acendo outro cigarro, tentando acalmar meu corpo, relaxar meu peito.
Talvez eu não te ame. Talvez eu ame os efeitos destrutivos que você causa em mim.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Vai com deus

Está vendo aquela mala do lado da porta? É sua. Todos os sentimentos e sensações que você me provocou estão ali dentro. É a sua hora de ir embora. Eu fico, você vai. Eu já era minha antes de você aparecer, então por que eu deveria me deixar de lado por sua causa? Talvez realmente tenhamos grandes diferenças de pensamento, ou criações diferentes, ou militâncias diferentes, ou qualquer explicação que seja plausível pra você. Mas eu sou isso aqui e é isso aqui que eu tenho pra te oferecer. Se te ofende ou diminui, você deveria tratar isso consigo mesmo antes de encarar um relacionamento com quem fala o que pensa.
Talvez eu seja mesmo sincera demais, talvez eu até queira me impor de forma mais agressiva. Fui silenciada várias vezes de várias formas tantas vezes antes da sua aparição. Talvez você tivesse gostado da menina de 16 anos que faria tudo pra te agradar. A mulher de 23 que hoje sou, faz o que quer. E te agradar não é a minha prioridade no momento. Fazer elogios, dar carinhos e bater um papo descontraído é porque gosto de você. Mas se o que eu sou não te faz gostar bem desse jeitinho de mim, não vou me mudar pra ter você por um tempo a mais. Em alguma hora minha essência forte e destemida ia explodir no meio da sua cara, e teria a força de um furacão. Vamos fazer um bem pela humanidade e evitar uma catástrofe.
Eu quis muito saber onde poderíamos parar. Eu imaginei histórias, sonhei mais alto que poderia voar. Eu me entreguei de verdade a esse sentimento que apenas havia plantado uma semente. Poderia crescer forte no meu peito, mas eu preferi arrancar pela raiz. Não que você não seja bom, você é ótimo. Mas não pra mim. Não agora, não hoje, não nesse meu momento. Não até você perceber que não há como mudar o que sou. Não enquanto você insiste que sabe tanto de mim. Não, você não sabe. Não, você não me conhece o suficiente. Não, eu não quero suas conclusões precipitadas de pessoa racional demais. Você conheceu o que eu te permiti conhecer, mas não derrubou nenhum dos meus muros. Eu sou uma pedreira e você não possuía munição o suficiente pra me demolir. Na verdade, quando tentou me atacar com as palavras, derrubei alguns pedregulhos pra te mostrar minha força real. E você se afastou, como sempre aconteceu.
Eu já me acostumei com esses finais, e agora é a hora que eu tento recomeçar outra vez. Eu errei algumas vezes quando pensei que segurando alguém, faria esse alguém ficar. Eles só ficam quando querem, e eu não tenho paciência pra esses dramas românticos de relacionamentos do século XXI. Eu quero, você quer? Então é isso que vamos ter. Eu não vou esperar uma decisão que nunca vem, eu não vou esperar seu telefonema que nunca acontece, seu "bom dia" que nunca chega. Não há espera quando não há motivos. Eu até emiti algum tipo de som, mas seu silêncio rasgou todas as folhas com palavras doces que escrevi sobre nós dois.
Foi bom enquanto durou. Talvez ainda haja esperanças da sua volta, da sua permanência, de você me querer por tudo o que eu sou e não pelo que a sua imaginação criou. Se aí sim, quando você aceitar que sou fortaleza e não aquele ser raso que pensava, poderemos recomeçar. Mas por enquanto você pode ir levando sua mala e me deixando ser o que eu sempre fui: EU.


quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Sem luz, com amor.

Sua silhueta me parece muito mais atraente quando estamos a luz de velas. É assim que vejo seus contornos e me pego admirando suas sombras. É assim que percebo que a sua beleza não possui lado ruim. Você chega perto, fala manso, diz que não vê a hora da chuva passar. Concordo com a cabeça, mas admito em pensamento que foi a hora perfeita pra cidade ficar neste breu. Você estava ocupado demais com seu trabalho, eu silenciada pela televisão. Então começou a chover e ouvi sua voz surpreso, como já não escutava há tanto tempo. Você me viu correr uma maratona para fechar as janelas antes da água invadir o apartamento. E riu. O som da sua risada costumava ser a minha canção de ninar. Tentou imitar meu pulo do sofá e fechou este livro que agora não tenho mais ciúmes. Nas duas últimas semanas, você se deitou mais com o maldito livro do que comigo! E agora eu era a sua rainha outra vez. Corri para o seu encontro e entre tapas de almofada, nos beijamos. Eu sei que nos alertaram que o convívio pode diminuir o amor, mas ninguém me avisou que eu iria me apaixonar outra vez a cada beijo mais animado. Eu olho pra você agora e tenho cada vez mais certeza que somos dois inteiros que se juntaram para formar o casal perfeito. Você me romantiza quando traz aquelas flores uma vez por mês, e eu te transformo em poesia sempre que  há um papel em branco no meio das suas coisas. Vez ou outra não percebo algumas letras miúdas e você passa vergonha ao entregar uma poesia sobre o seu sorriso para algum cliente. Me liga sempre feliz, nunca irritado. Diz que achou lindo e desfez o mal entendido. E são nesses dias que você chega em casa explodindo de felicidade e desejo. Me puxa pros seus braços, mesmo quando estava toda suada, e selamos nosso pacto de amor por toda a casa.
Alguns dias serão mais difíceis para conseguir toda a sua plena atenção, sei que a vida anda ocupada e os dois estão cheios de trabalho pra entregar. Mas não vou reclamar se fez ou outra São Pedro se juntar a companhia de energia e nos desligar de toda essa tecnologia. Vou poder te falar como você fica bonito a luz de velas enquanto me beija os seios. Você vai elogiar cada curva do meu corpo, principalmente o sorriso que surge quando me fala essas coisas. Vamos viver esse amor na sua mais pura essência, como duas crianças descobrindo jardins secretos. E depois voltaremos, junto com a luz, as nossas tarefas de adulto. Eu sei que te amo porque vivo na espera de ser tua toda vez. Eu sei que você me ama porque sempre me faz sua antes de qualquer outra coisa. E nos basta esse amor, com barulho de chuva e pouca luz.